quinta-feira, 11 de março de 2010

O Presente Periperi

Fazendo um passeio panorâmico pela região de cultivo tradicional da cana-de-açúcar em Sergipe, avista-se aqui ou acolá, chaminés ou sobrados em processo de ruína, que muito dizem respeito à situação política, estrutural e cultural da sociedade sergipana atual e da brasileira, de uma forma generalizada.

Nos limites do Município de Maruim, no meio dos canaviais, afronta imponente um dos mais suntuosos símbolos da arquitetura sergipana açucareira. Asede do antigo Engenho Pedras, na qual desponta um palacete construído no século XIX, réplica do Palácio do Governo, sede do governo de Sergipe à época.

À frente das palavras, a exeperiência de conhecer de perto uma dessas sedes de engenho nos traz a sensação viva do quanto estamos atrelados a nossas raízes históricas, principalmente quando se tem a oportunidade inesperada de descobrir uma dessas relíquias, esquecida, abandonada em meio a um pasto mal tratado. Falo das ruínas do Engenho Peri Peri, das quais relutam pelo tempo os alicerces de um sobrado de dezessete metros de largura por vinte e um metros de comprimento, as colunas de uma senzala e uma parte destruída da casa de fazer o açúcar.

Embora pareça de pouco valor, pelo grau de deterioração bem avançado, as ruínas desse engenho permitiram o meu deslumbramento. A começar pela projeção da casa, situada em um vale cortado por um rio tranquilo que permite ao visitante imaginar como seria a visão, de dentro de um dos compartimentos superiores hoje inexistentes. Aliás, do antigo sobrado restam apenas um alicerce de três metros de altura com as peças de madeira que suportavam o assoalho e as colunas frontais contornadas por tijolos de cerâmica.

Olhando à frente da casa têm-se talvez a mesma paisagem de séculos atrás, os verdes partidos de cana, bordejados lateralmente por uma mata densa e bem conservada. Asenzala tabém pode ser vista, restam somente as colunas de madeira que davam sustentação ao prédio estando cobertas pelo mato. Do lado leste da casa, quatro coqueiros de mais de um século de existência, acompanhados por três ou quatro fruteiras centenárias.

Em meio a tantas descobertas encontrei uma velha carroça de bois com rodas de madeira e cinta de metal, ainda de pé. Nesse momento começou a aflorar a imaginação. Lembrei-me, entuasiamadamente, da obra Casa Grande e Senzala do ilustre antropólogo brasileiro Gilberto Freire e viajei no tempo, tentando me situar no cotidiano dos moradores daquele lugar há séculos atrás.

Como deveria ser movimentado a sede do Peri peri; os carros de boi trazendo a cana para moer..., as pescas ordenadas pelo Senhor de Engenho na Semana Santa..., as dificuldades de acesso que tinham os escravos braçais à casa grande...

Não cheguei a imaginar muito e todo o meu romantismo apaixonado pelo passado fora subtraído pela indignação e pela palpável constatação histórica da dominação social sofridas por nós brasileiros. Foi possível sentir o funcionamento de todo aquele sistema arcaico e desvendar na concretude a origem de muitas das mazelas que assolam este Brasil contemporâneo.

Os fundamentos culturais, políticos, do nosso povo estavam ali, nas projeções daqueles alicerces de pedra, lembrança viva da adoção ultrapassada de um modo de produção escravista do qual grande parte do mundo ocidental já houvera se livertado naquele tempo.

A dimensão do poder empreendido pelos senhores de engenho era facilmente percebível pela imponência do sobrado. Alto, três metros acima do solo, uma verdadeira fortaleza, assim como diversas outras casas grandes, distribuídas por um nordeste açucareiro, no qual a força era outorgada aos proprietários de terra, pela Corte Portuguesa.

Fazendo um paralelo com o presente, o passado parece ativo em nossa estrutura social. Renato janine Ribeiro, em um dos capítulos do seu livro: a sociedade contra o social. O alto custo da vida pública no Brasil, faz um estudo em relação à utilização por políticos, jornalistas e empresários das palavras social e sociedade.

Ressalta que a sociedade significa, hoje, na linguagem corrente, o conjunto dos que detêm o poder econômico, enquanto social remete a uma política que procura minorar a miséria.

Não é difícil perceber que ainda permanece no pais, resquícios da relação da casa grande e senzala. O social vem sendo extirpado de participar de significativa quantidade da riqueza gerada no pais e ainda se encontra às margens da proteção estatal, isentos do respeito aos seus direitos fundamentais como pessoa humana.

Enquanto isso, a sociedade, carente de cidadania ao invés de procurar a união como sociedade e tentar resolver a situação da miséria e da exclusão social, geradores da violência, do desemprego e outros males, prefere o isolamento, e vivem escondidos em suas fortalezas protegidas comgrades e cercas elétricas como fizeram os primeiros invasores desta terra para se protegerem dos "selvagens"

Por sua vez, embora muito distante esteja a sociedade do social, longe de uma dialética, longe do debate coletivo, caracter´sitico da democracia participativa, acreditam os brasileiros, que a responsabilidade e o compromisso capaz de resolver as mazelas do pais deve ser centralizado nas ações governamentais. O Estado é sempre considerado o redentor do progresso. Assim como o senhor de engenho, o chefe de governo é capaz de tudo porque pode tudo no pensamento das pessoas.

O viés centralizador ainda é uma característica das relações políticas contemporâneas no Brasil. Embora vivamos em uma República Federativa, na qual os entes federados são legalmente autônomos e independentes, os governos municipai e estaduais responsabilizam o governo federal pela inércia de suas partes. Deixam de obsercar que cada esfera da federação possui competência determinada pela Constituição Federal e a União não deve centralizar em si toda a responsabilidade.

Por mais que tentemos esquecer o passado destruindo o patrimônio histórico ou omitindo o dever de consevá-lo ou não, é possível negar a sua presença. Enquanto não exorcixarmos os fantasmas dos sobrados, dos pelourinhos, buscando não repetir os erros e reconhecer que somos responsáveis pela mudança, continuaremos assombrados por instituiçõesque ainda se fazem presentes nas relações humanas do Brasil.

A visita que relato é a humilde visão de um cidadão que é capaz de relacionar apenas o que é referido segundo experiências pessoais, diante da privilegiada visita ao Peri Peri. Espero que muitas pessoas possam oportunamente conhecer de perto um desses patrimônios esquecidos e constatar empiricamente a sensação de compreensão da realidade atual do prasil, pautada pela história arquitetônica de uma sede de engenho.

Do mais, não nos esqueçamos que o instituto da escravidão foi retirado do sistema jurídico nacional não faz 150 anos e muito se pode extrair de uma visita a um engenho. Muito mais do que a minha mera visita como leigo.

Povoado Boa Vista, Município de Capela/SE, 2004.

Gonçalo Ribeiro de Melo Neto

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